segunda-feira, 22 de agosto de 2011



As Palavras
Composição: Sereia de Água Doce (Vanessa da Mata)

As palavras saem quase sem querer,
Rezam por nós dois.
Tome conta do que vai dizer.
Elas estão dentro dos meus olhos
Da minha boca, dos meus ombros
Se quiser ouvir
É fácil perceber.


Não me acerte
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Escolha os versos para ser meu bem e não ser meu mal
Reabilite o meu coração.


Tentei
Rasguei sua alma e pus no fogo
Não assoprei
Não relutei
Os buracos que eu cavei
Não quis rever
Mas o amargo delas resvalou em mim
Não me deu direito de viver em paz
Estou aqui para te pedir perdão.


Não me acerte
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução.
Escolha os versos para ser meu bem e não ser meu mal
Reabilite o meu coração.


As palavras fogem
Se você deixar
O impacto é grande demais
Cidades inteiras nascem a partir daí.
Violentam, enlouquecem ou me fazem dormir
Adoecem, curam ou me dão limites
Vá com carinho no que vai dizer.


Não me acerte
Não me cerque
Me dê absolvição.
Faça luz onde há involução
Escolha os versos para ser meu bem e não ser meu mal
Reabilite o meu coração.


sexta-feira, 22 de julho de 2011


Aquilo

Aquilo não era amor.
Era um acelerar de corações,
um frio incessante na barriga,
sem começo nem fim.

Aquilo não era amor.
Era um abandonar do mundo
para estar com uma única presença.

Aquilo não era amor.
Era um nervosismo constante,
uma necessidade urgente
de termos um ao outro.

Aquilo não era amor.
Era a negação de tudo que
eu achava que era
para deixar chegar quem ele
acreditava que eu seria.

Aquilo não era amor.
Era um desejo que só
tinha começo,
era a reinvenção do prazer humano.

Aquilo não era amor,
era muito mais.

 

quinta-feira, 21 de julho de 2011



Hoje eu sinto saudade de mim mesma.
De uma “eu” que o tempo levou.
De uma inocência juvenil.
De um dispensar das horas, sem culpa.
De uma bestialidade com sentido.
 
Hoje, eu vejo essa versão de mim se afastar cada vez mais.
Vejo-a muito distante,
e por vezes, a vejo me ver.
O estranhamento é nítido.
Quase a sinto reprovando minhas ações,
criticando meu sorriso falso e
ironizando a minha falsa felicidade.

Hoje, nesse meu momento de buscar onde sentir
que estou perdendo a mim mesma,
o instante me escorre pelos dedos e o cotidiano
exige minha presença.

 

terça-feira, 19 de julho de 2011



Impressões

Desde muito pequenina a curiosidade foi minha companheira, meu alimento, minha guia. Desde muito menina, aprendi o prazer e os riscos de dar asas à minha alma e à curiosidade que habita em mim. E não cresci diferente, admito! Embora saiba e tenha consciência, embora a razão não me tenha faltado, me tornei sim, uma mulher curiosa, alerta para as maravilhas da vida, uma mulher que se permite o encanto de cada descoberta. E, antes que os julgamentos se multipliquem, antes que se cristalizem sob mim, saio em minha defesa!
O que seria do mundo sem os curiosos? São eles que perpetuam as descobertas, as melhorias, os sonhos, o encontro com o que se busca, se deseja! E foi em busca do encontro comigo mesma, foi pela necessidade de obter respostas a questões outras minhas e quiçá, da humanidade inteira, que cheguei às minhas descobertas. Assim que pude tecer opiniões, sobre o mundo e sobre a existência, me vi povoada de incertezas saltitantes, ébrias, e tresloucadas de mim e do mundo. Antes de rir-se de mim, ou da inocência declarada das palavras minhas, recobre a memória que há em ti de liberdade e devaneios e verás lá também tantas outras indagações pueris, ou nem tanto assim, fruto dessa tal curiosidade. Tentarei explicar, se possível, o motivo, ou a motivação para tais palavras tão errantes, e tão frágeis no seu existir.
Nesta manhã, que seguia como tantas outras, sem importância, ou sabor nenhum, me deparei novamente com a curiosidade que há em mim, genuína, sincera e pura talvez, refletida na minha imagem, sim, lá estava o pivô de todo esse embrolho semântico e lingüístico, que no fundo busca sentido, para minha alma que sabe o peso de todas as incertezas que trás em si.
 Na imagem refletida pelo espelho com a ajuda da luz matinal que adentrava pela janela, como se fosse a luz do saber, do conhecimento, do desvendar, pude ver, pude me ver, e examinar cada parte do meu rosto, olhos, nariz, boca, como quem buscava externada imperfeições outras que de dentro saltavam. E lá estavam, paradas, a alavanca de toda essa comoção, de todo esse revirar que fez nascer em mim, essa engatinhante escritora, esse desabafo, essa constatação.
A surpresa me fez recorrer à aquela que para mim é sem dúvidas a maior e mais rica fonte de conhecimento, de vida, de tudo enfim, minha mãe, que nada tinha a ver com o que se passava, apenas seguia tranquilamente a sua rotina de dona de casa aplicada, com ela é, e, sem nenhum abalo, deu me a resposta , o ponta pé para a minha descoberta, para o começo desse estágio, para esta metamorfose que agora vivo. Ao pergunta-la, assustada, temendo o pior ou o desconhecido, tive, por instantes ao menos, a sensação de alívio, de conforto, de aconchego. O que me deixou tão assustada foi, ao continuar com minha inspeção sobre a minha imagem, ver em meu pescoço, um número considerável de verrugas, sim, de verrugas, pretinhas, pequeninas, e que causaram tão significativa descoberta, perguntei aflita a minha mãe interrompendo a serenidade das suas atividades, se ela já tinha visto, e como eram tantas as verrugas em mim, e minha mãe mais uma vez, sabiamente, ou até sem ter a consciência do quão importante foram suas palavras, disse: - o que tem?  Nunca tinha visto? Eu continuava perplexa, a espera do desfecho, do seu discurso.  Mas não imaginava o tanto que ele me modificaria. Continuou minha mãe: - Lola tem, eu tenho, tia Biba tem...é a sua herança!!!
Foi aí então que meus sentidos entraram em conflito, eu buscava me segurar em um fragmento qualquer das palavras que ela, sem cerimônia alguma, lançara sobre mim.  Eu tinha uma herança, sabem o que isso causou mim, conseguem prever, ou sentir a dimensão dessas palavras?! Era um divisor de águas, uma nova era que se iniciava. Eu pertencia a algo, eu que passara a minha vida sempre em busca, sempre querendo saber para onde ir, que chorara, e arrastara o medo de não saber, não acertar, não ter, não ser, tinha recebido ali, assim, a solução que nem eu mesma sabia que existia.                  
Eu podia ser uma errante, eu com esta declaração serena, mas com firmeza e um leve sorriso nos lábios da minha mãe, eu podia arriscar, era como se minha mãe inconscientemente soubesse, é chegada a hora!
Caros, entendam, que a minha descoberta vai muito além de verrugas pequeninas e pretinhas, eu podia ousar, eu, agora posso, ir, voltar, revê, refazer, sem temor algum a minha estrada, os meus caminhos, não é mais para onde vou, se irei ou não alcançar, ou  conseguir.  O que tenho é maior, não importa para onde os ventos, os sonhos me levem, eu agora tenho para onde voltar, agora tenho meu porto, minha origem, minha herança.

 

terça-feira, 14 de junho de 2011

Aqui, ali





"A simplicidade do belo, que assusta tanto os homens."

vou ficar
o tempo que preciso for
pra te dar todo o amor necessário

vou correr
por toda terra a procurar
seu olhar e o sorriso que é tão raro


a vida me fez pra ser feliz
e o teu coração me diz o mesmo

vou chorar
às vezes vou sorrir de amor

ser assim trazer o lado bom das cores

vou somar
os restos que você deixou
melhorar, reparando minhas dores

a vida me fez pra ser feliz
e o teu coração me diz o mesmo


solidão partiu, agora só você e eu aqui

solidão partiu, agora só você e eu aqui, ali
pra ser feliz, pra viver, pra sonhar
pra sorrir ou chorar, assim, pra sempre.


Roberta Campos

sexta-feira, 20 de maio de 2011



Teus olhos
Marcelo Camelo e Zé Pereira

Teus olhos abrem pra mim
Todos os encantos
Teus olhos abrem pra mim

Teus olhos abrem pra mim
Todos os encantos bons
Tudo que se quer vai lá

Eu vi na terra
Você chegando assim
Assim, de um jeito tão sereno

Ai, ai, meu Deus do céu
Eu vivo sem pensar
Se sou só

Acho que não vou mais
Agora tudo tanto faz,
meu bem
Eu vi você passar
levando meu encanto

Caminho sem saber de mim
Eu vivo sem pensar
Se sou só
Ou sou mar

Mas eu conto com você
Pois enquanto eu não me resolver
Eu vou lá, eu vou lá
Mas enquanto eu não me resolver
Eu vou lá, eu vou lá


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Nesse momento de incertezas, onde a vida me apresenta muitas dúvidas e sensações, nada melhor do que a escrita para me apresentar um pouco do conforto que necessito. Apreciem com carinho.


A menina do “não sei”
Em todas as fases e faces de nossa vida existem acontecimentos e sentimentos que promovem o nosso amadurecimento, autoconhecimento e maturidade. Mas, certamente, a mais prazerosa delas é a adolescência. Nessa fase da vida tudo é mais intenso, forte e avassalador. Eu fui uma adolescente muito tranqüila no que diz respeito ao tratamento com os meus pais, amigos e estudos. Nesses aspectos, tudo transcorria na mais perfeita harmonia. Porém, quando se tratava de amor, de me apaixonar, do trato com o sexo oposto, eu me sentia como um mar constantemente bombardeado por muitas tempestades. Uma delas foi um estudante de psicologia que parece ter encontrado em mim um caso de extrema complexidade para os conceitos recentemente aprendidos sobre a mente humana.
Nos conhecemos por intermédio de amigos comuns e inicialmente uma empatia bem serena e agradável fazia parte das ocasiões que nos encontrávamos. As conversas eram sempre muito prazerosas, as afinidades e os diálogos cheios de conhecimento e algum tipo de sabedoria, encantava-nos mutuamente. Um ambiente de admiração e carinho foi sendo construído entre nós. Conversávamos sempre. Nos víamos com freqüência e ficávamos com saudade desses momentos de encontro de almas. Com saudade daquela sensação boa de ter encontrado alguém que é seu lugar no mundo.
Por ser uma pessoa mais prática e racional, como definida por ele mesmo, a necessidade de um envolvimento também sexual se fazia necessária na minha concepção, para tornar completo esse encontro tão ímpar em minha vida. Eu necessitava de beijos, de beijos ardentes, daqueles que nos deixa sem fôlego, que nos fazem sonhar com a pessoa, que nos fazem transcender só de lembrar da sensação tão prazerosa que é esse encontro verdadeiro de lábios e línguas. Mas, como uma mocinha bem comportada que era, jamais tomaria a iniciativa em beijá-lo. Eu sentia que ele também desejava esse momento mas, acredito eu, devido a esse encontro tão raro que tivemos, talvez ele não o quisesse estragar, transformando-o em algo tão tátil.
O apelido mais carinhoso que ele conseguiu me dar foi “a menina do não sei”. Depois que eu já me via apaixonada por ele, os nossos diálogos perderam a veemência em discutir o conhecimento, as teses e concepções do mundo. Eu já não me sentia tão segura e hábil a responder algumas de suas indagações. Perdi a segurança diante dele. Fiquei frágil. Então, para muitos de seus questionamentos, eu respondia sempre dizendo um simples “não sei”. Na verdade, eu já não sabia se sabia ou não responder às questões que ele me propunha. Me via tão embriagada pelo que estava sentindo que perdi o foco de impressioná-lo, de participar de maneira mais incisiva e culta das conversas que tínhamos. Ele certamente percebeu e foi muito sútil em me mostrar isso.
Algumas das muitas vezes em que nos encontrávamos, não sozinhos, mas sempre na companhia de amigos comuns, éramos os últimos a nos abandonarmos, ficávamos horas a fio envolvidos em nossas palavras, e por conta disso, algumas vezes ele me levava em casa. A nossa conversa era alimentadora de passos lentos e às vezes algumas paradas por entre as ruas quase desertas no caminho onde eu morava. Ele era bem mais alto que eu, o que me levava a pensar, por algumas vezes, em como seria possível nosso beijo. Felizmente, como homem inteligente que é, isso foi facilmente resolvido no momento oportuno, que felizmente chegou. É, chegou. Em um desses dias que fomos abandonados pelos nossos amigos diante do tanto que tínhamos a dizer um para o outro, ele cumpriu com sua gentileza ao me acompanhar até em casa. O caminho foi, como sempre, bem agradável. Com discussões que versavam de política, cultura, educação, amor, etc. No momento então que me vi em frente de minha casa e pronta para mais uma vez me despedir dele com um beijinho no rosto e um desejo de boa noite, ele me pegou pela cintura e me colocou sobre a calçada, que era um pouco alta, possibilitando então que tivéssemos quase a mesma altura. Eu agora era mais alta que ele, o que facilitou para que eu me apoiasse em seus ombros e ele me puxasse para si e eu então tivesse a tão desejada oportunidade de beijá-lo. E assim eu o fiz. Foi um beijo tão simples, calmo, demorado e doce. Não consegui fazer como imaginei, um beijo sensual. Eu diria até, se isso é possível, que foi um beijo maduro e complexo. Embora envolvendo dois adolescentes, foi um beijo adulto, fruto de um amor longamente semeado, cautelosamente cuidado e finalmente colhido.