Não se afobe, não Que nada é pra já O amor não tem pressa Ele pode esperar em silêncio Num fundo de armário na posta-restante Milênios, milênios No ar E quem sabe, então O Rio será Alguma cidade submersa Os escafandristas virão explorar sua casa Seu quarto, suas coisas Sua alma, desvãos Sábios em vão Tentarão decifrar O eco de antigas palavras fragmentos de cartas, poemas Mentiras, retratos Vestígios de estranha civilização Não se afobe, não Que nada é pra já Amores serão sempre amáveis Futuros amantes quiçá Se amarão sem saber Com o amor que um dia Deixei pra você.
"Eu estava mexendo no violão, começei a fazer a melodia, e a primeira coisa que apareceu foi exatamente cidade submersa, isolada de tudo... Porque cantarolando parecia cidade submersa, parecia que a música queria dizer isso. E eu tinha que ir atrás depois, tinha que explicar essa cidade submersa, tinha que criar uma história. Aí eu coloquei esses escafandristas e esse amor adiado, como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor vai ficar aí debaixo d'água e vai ser usado por outras pessoas. Amor que não foi utilizado. Porque não foi correspondido, ele ficou ímpar, pairando ali, esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor." Chico Buarque.
Trecho do livro Histórias de canções: Chico Buarque, de Wagner Homem, São Paulo, 2009.
Eu não conhecia muito a obra do Chico Buarque através de sua voz. Por ser nordestina e valorizar muito os artistas da minha região, por ter sido influenciada musicalmente por um pai que valoriza os artistas da terra, não havia me rendido aos encantos desse fluminense de olhos tão tristes e belos. Suas músicas porém, conheci sim, principalmente pela belíssima voz da Gal Costa. Confesso que as prefiro cantadas por ela. Sempre gostei mais de vozes femininas a embalar músicas. Gal deu ao Chico toda a sutileza que ele merece. Uma voz gentil, doce, carícia aos meus ouvidos, principalmente no CD Mina d'água do meu canto onde a mesma interpreta canções de Chico e Caetano e onde ouvi pela primeira vez a música acima escrita. Outra responsável em me tornar mais íntima da obra do Chico foi a Maria Bethânia. Intensidade...é a mais simples palavra que posso usar para definir tamanha entrega. É visceral! A Bethânia já é profunda por natureza, quando canta o pesar de Chico fica ainda mais bela e forte. Acho que agora, na ocasião em que leio o livro do Wagner Homem e depois de ter o Chico apresentado a mim por intermédio dessas duas divas, ele me parece bem mais rico de sentido. Me parece mais fundamentado, mais propício. O delicioso exercício que eu costumo fazer nesses dias em que me deleito com o livro é ouvir as canções do Chico, cantadas por ele. Aquela voz ímpar, cheia de pesar, sentimentos e vida.